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Arquivo de Agosto, 2008
Alberto António Teta Lando, filho de Alberto Teta Lando e de Maria da Conçeição dos Santos Teta, deixou-nos. Foi como se nos tivesse oferecido um último acorde longo, longo de 60 anos de melodias, de harmonias, de desarmonias, de acordes alegres em “dó maior” e de feridas dolorosas em “si menor”. Deixou-nos cedo, demasiado cedo, apenas cumpridos os 60 anos.
Alberto Teta Lando nasceu em Mbanza Congo, Província do Zaire, República de Angola, no epicentro dos acontecimentos que marcaram e produziram a contemporaneidade do actual Estado de Angola. Tinha apenas 13 anos, quando perdeu o pai, brutalmente assassinado pelo regime colonial português, por este defender a independência, a dignidade e o respeito pela diferença na unidade. Com essa idade somos demasiado pequenos para compreender e explicar a brutalidade e a intolerância dos homens; mas somos suficientemente crescidos para nunca esquecer as vicissitudes a que os homens são submetidos.
Aos 13 (treze anos) fica difícil perceber o porque decapitar um homem; pois os colonialistas portugueses, em 1961, inicio da luta de libertação nacional, decapitaram o pai de Teta Lando, que foi enterrado sem cabeça, porque esta foi usada como amostra para intimidação dos chamados indígenas, para calar as aspirações dos angolanos à independência.
Na sequência da morte do velho Teta, pai de Teta Lando, nosso Patriarca, a família Teta, composta por 32 irmãos ficou destroçada e separada. Se alguns permaneceram em Angola, outros foram para o exílio e juntaram-se aos movimentos de libertação.
Teta Lando, sua mãe e alguns de seus irmãos, fixaram residência em Luanda e Lisboa. Iniciou, então, a sua carreira musical fazendo, da música, uma arma da continuidade do legado de seu pai, a arma de combate contra o colonialismo português e da canção um instrumento de promoção da democracia, da justiça social, da unidade nacional e da promoção dos valores Angolanos e Africanos. A cultura Bakongo, por exemplo, assumiu particular importância na sua produção, destacando-se músicas tais como Kimbemba, Ntoyo, Tata Nkento entre outras. Muitas outras, diria, músicas militantes e românticas, letras para encantar e para lutar, palavras de oração e liberdade, são hoje verdadeiros hinos nacionais.
Por isso tudo, por tudo o que fizeste, construiste e nos deixaste, atrevo-me a dizer que “Fugaste da escola” da vida, meu caro amigo, meu tio, meu irmão, meu artista. Fugaste, e nada disseste. Não disseste se “Vais Voltar” para um “Funge de Domingo”, para veres as vaidades e as voltinhas da “Menina de Angola” ou para nos contar as histórias da “Tia Chica”, a tal que vendia banana, ginguba e limão.
E fugiste antes de tempo, deixando-nos mais tristes, mais sós e mais órfãos!
Com a tua partida, a partitura das nossas noites de liberdade e de fraternidade ficou sem o maestro de mão segura que nos conduziu por caminhos de harmonias pessoais e socias. E que dirá “Ntoyo ?”, agora que não estás mais entre nós e que não teremos a oportunidade de ouvir, cantada por ti, essa magnífica canção de revolta e liberdade? Que dirá essa ave amordaçada por medos sem sentido? Vai mesmo falar, apesar das vozes discordantes e das opiniões divergentes. Assim como nós, filhos da liberdade de um país que amaste e que cantaste, vezes sem conta.
Meu caro amigo, meu tio, meu irmão, meu artista.
Se eu tivesse o engenho e a arte que passeaste por estas nossas terras, dir-te-ia coisas ainda mais lindas do que aquelas que nos cantaste.
Parafraseando uma das tuas canções e, rezando baixinho, pediria ao “Senhor para escutar a minha voz”, dizendo-lhe que estamos aqui para nos despedirmos de ti. Dizendo-lhe que a suavidade de uma música merece as honras e as belezas do paraíso onde te encontras.
Pai, Tio Beto, Mano Beto
Infelizmente só depois de partires nesta viagem sem retorno é que compreendemos aquilo que enquanto presente não era possível compreender, a sua visão de futuro, os teus princípios, a sua verticalidade, o teu forte espírito tradicional enraizado na Cultura Bakongo, as tuas mágoas, enfim a tua honestidade.
Visionário!
Só agora percebemos as mensagens:
Camarada a palavra de ordem é união
Irmão ama o teu irmão
Irmão ajuda o teu irmão.
Só agora compreendemos o que predisseste sobre a união genuína dos angolanos com o funje de Domingo.
Nosso visionário e poeta!
Estamos todos aqui a cumprir com o seu Kimbemba.
Pai, mano Beto, tio Beto, avô, primo Beto!
A tua querida Cecília, os teus filhos Nani, Mami , Vava, irmãos e irmãs,
Os teus tios e tias,
Os teus sobrinhos e sobrinhas,
Os teus primos e primas,
Os teus Netos e Netas
Os teus irmãos e sobrinhos da Diáspora ausentes neste ultimo Adeus,
Os teus cunhados e cunhadas,
Os teus compadres e comadres,
Os teus colegas da Música,
Os teus queridos companheiros da UNAC,
Muito dos teus amigos e amigas, conhecidos, conhecidas e todos teus admiradores
Estamos todos, dizendo-te, num curto adeus de músicas tuas, que ouviremos as tuas canções para que a tristeza se converta num fio de esperanças novas, de dias cheios de felicidade e de fraternidade.
Estamos aqui para reafirmarmos o nosso compromisso com o teu legado, a continuidade do Espirito de União, honestidade, bem como garantir-lhe que tudo faremos para continuarmos a Honrar o nome do nosso patriarca, também conhecido como o Velho Teta do Uige, pelo qual sempre te bateste e cantaste o meu “ Eu vou Voltar”.
Descansa em paz, na paz dos justos, dirá a Igreja, e na paz dos artistas, criadores de beleza e de emoções, diremos nós. Até sempre. Toma Kwenda!